A Sombra Carente de Si Mesma

Quando a ferida da rejeição está ativa, a autossabotagem geralmente não aparece como uma escolha consciente. Ela surge como uma tentativa inconsciente de evitar sentir novamente a dor de não ser aceito.

Ela vira, em muitos casos, uma sub personalidade, uma sombra inconsciente ocultada por máscaras.

Esses padrões, embora perceptíveis, ocorrem de forma inconsciente. Na maioria das vezes a própria pessoa ignora.

A mente cria estratégias, caminho neurais, de proteção, conforme o enredo vivenciado no evento estressor que ocasionou a ferida emocional, como:
1. Autoexclusão. Ocorre quando ela se sentiu excluída.
A pessoa se afasta antes de ser afastada.
Pensamento oculto:
"Se eu me afastar primeiro, não serei rejeitado."
2. Perfeccionismo. Ocorre quando ela se sentiu imperfeita, ou achou que deveria ter sido " boa o suficiente", para ser aceita.
Tenta ser impecável para merecer amor.
Pensamento oculto:
"Se eu errar, deixarão de me amar."
3. Procrastinação. Quando a crença instalada é a de que fracassou, ou representou o fracasso de alguém.
Não tenta para não correr o risco de fracassar e decepcionar.
Pensamento oculto:
"Melhor nem tentar do que descobrir que não sou capaz, ou ser julgada."
4. Necessidade de aprovação. Quando a crença está na opinião alheia, na dúvida do auto-valor.
Busca constantemente validação externa.
Pensamento oculto:
"Meu valor depende do que os outros pensam."
5. Hipersensibilidade. Quando lidou com frieza em momentos de carência afetiva.
Interpreta neutralidade como rejeição.
Pensamento oculto:
"Se não demonstraram carinho, é porque não gostam de mim."

A rejeição costuma gerar um programa inconsciente:
"Existe algo errado comigo."
A partir daí surgem comportamentos que confirmam essa crença:
Escolher parceiros indisponíveis.
Aceitar migalhas emocionais.
Permanecer em relações desequilibradas.
Não cobrar respeito.
Esconder talentos.
Não se permitir prosperar.
É como se a pessoa estivesse tentando provar para si mesma uma história antiga.

A sombra da rejeição produz uma desconexão do próprio valor essencial.
A alma diz: "Eu sou."
A ferida diz: "Preciso merecer existir."
Daí surgem padrões mais profundos, e a pessoa vive de máscaras, como: 
Máscara do agradador
Vive para atender expectativas alheias.
Máscara do invisível
Evita destaque para não ser criticado.
Máscara do salvador
Tenta ser indispensável para não ser abandonado.
Máscara do forte
Nunca pede ajuda para não correr o risco de ouvir um "não".

Crenças-raiz para conscientizar
Observe se existem frases internas como:
"Não sou importante."
"Não sou prioridade."
"Os outros são melhores que eu."
"Não pertenço."
"Ninguém me escolhe."
"Preciso provar meu valor."
"Se me conhecerem de verdade, vão me rejeitar."
Essas crenças costumam operar silenciosamente.

A sombra mais profunda
Na sua paciente, pela história que você relatou anteriormente, eu investigaria especialmente esta crença:
"Eu não fui escolhida."
Porque a morte da irmã, seguida pelos episódios relacionados ao aniversário, pode ter sido interpretada pela criança como:
"A atenção vai para os outros."
"Eu fico em segundo plano."
Quando essa crença se instala, a pessoa frequentemente recria situações onde não é escolhida — relacionamentos, amizades, trabalho, reconhecimento profissional — não porque deseja sofrer, mas porque o inconsciente procura confirmar o que aprendeu na infância.

Só há um jeito de superar as ilusões sustentadas pela sombra: trazer a luz da consciência.

 E o que está acima do que pensa ou sente, senão a consciência.
Logo, conscientizar-se é a luz que você pode lançar sobre a sombra.

"Você não é o que sente. Se você é capaz de observar o que sente, você é acima do que sente." Douglas Ghimell 

Essa é uma reflexão poderosa sobre a distinção entre a experiência emocional e a consciência que a observa. Ao separar o "eu" do sentimento passageiro, você retira o poder que a emoção tem de definir a sua identidade.

Aí está a raiz de grande parte da nossos desafios inconscientes.


Quando você aprende a observar seu sentimento sem se fundir a ele, você recupera o comando. Embora não seja suficiente isto, aqui está o ponto de partida para a reintegração do eu inferior.

Você não é o seu medo, não é a sua raiva e não é a sua tristeza, nem sua ferida. Você é aquele que assiste a tudo isso passar.

Uma afirmação que pode iniciar um processo de ressignificação é:
"Não preciso conquistar um lugar na vida. Eu já tenho um lugar. Não preciso provar meu valor. Eu já sou valioso pela simples condição de existir."

Entretanto, para reintegrar a sombra, eu recomendo que, nos casos de rejeição, uma dor profunda, cheia de nuances e máscaras, deva ser superada, como de fato ocorre, quando a pessoa descobre sua natureza essencial, seu senso de valor e de utilidade.

Douglas Ghimell 
Escritor e Terapeuta Holístico 

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